sexta-feira, 18 de maio de 2012

Trabalhar até que idade?


Dra. Rita Levi Montalcini

Presidente Honorária da Associação Italiana
de Esclerose Múltipla

A neurologista italiana Dra. Rita Levi-Montalcini, que completou 103 anos no dia 22 de Abril de 2012, recebeu o Prémio Nobel de Medicina quando tinha 77 anos.




Trechos da entrevista de 22/12/2005

E o que você faz?
Trabalho para dar uma bolsa de estudos para as meninas africanas para que estudem e prosperem … elas e seus países. E continuo investigando, continuo pensando.

Não vai se aposentar?
Jamais! Aposentar-se é destruir o cérebro!
Muita gente se aposenta e se abandona…E isso mata seu cérebro. E adoece.

Como está o seu cérebro?
Igual quando tinha 20 anos! Não noto diferença em ilusões nem em capacidade. Amanhã vou para um congresso médico.

Mas terá algum limite genético ?
Não. Meu cérebro vai ter um século… mas não conhece a senilidade… O corpo se enruga, não posso evitar, mas não o cérebro!

Como faz isso?
Possuímos grande plasticidade neural, ainda quando morrem neurónios, os que restam se reorganizam para manter as mesmas funções, mas para isso é conveniente estimulá-los!
A chave é manter curiosidades, empenho, ter paixões…veja…não me refiro a paixões físicas especificamente…simplesmente tenha paixões.

A sua foi a investigação científica…
Sim e segue sendo.

Descobriu como crescem e se renovam as células do sistema nervoso…
Sim, em 1942 dei o nome de Nerve Growth Factor (NGF, factor do crescimento nervoso), e durante quase meio século houve dúvidas, até que foi reconhecida a sua validade e em 1986, me deram o prémio por isso.

Como foi que uma garota italiana dos anos vinte converteu-se em neurocientista?
Desde menina tive o empenho de estudar. Meu pai queria me casar bem, que fosse uma boa esposa, boa mãe… E eu não quis. Fui firme e confessei que queria estudar.

Seu pai ficou magoado?
Sim, mas eu não tive uma infância feliz, sentia-me feia, tonta e pouca coisa… Meus irmãos maiores eram muito brilhantes e eu me sentia tão inferior…

Vejo que isso foi um estímulo…
Meu estimulo foi também o exemplo do médico Albert Schweitzer, que estava em África para ajudar com a lepra. Desejava ajudar aos que sofrem, isso era meu grande sonho!

E você tem feito… com sua ciência.
E, hoje, ajudando as meninas da África para que estudem. Lutamos contra a enfermidade, a opressão da mulher, além de outras coisas…

A religião trava o desenvolvimento cognitivo?
A religião marginaliza muitas vezes a mulher perante o homem, afastando-a do desenvolvimento cognitivo, mas algumas religiões estão tentando corrigir essa posição.

Existem diferencias entre os cérebros do homem e da mulher?
Só nas funções cerebrais relacionadas com as emoções. Mas quanto às funções cognitivas, não tem diferença alguma.

Por que ainda existem poucas cientistas?
Não é assim! Muitos descobrimentos científicos atribuídos a homens, realmente foram feitos por suas irmãs, esposas e filhas.

É verdade?
A inteligência feminina não era admitida e era deixada na sombra. Hoje, felizmente, tem mais mulheres que homens na investigação cientifica: as herdeiras de Hipatia!

A sábia alexandrina do século IV…
Já não vamos acabar assassinadas nas ruas como ela foi. Claro, o mundo tem melhorado algo…

A ideologia é emoção, é sem razão?
A razão é filha da imperfeição. Nos invertebrados tudo está programado, são perfeitos. Nós não. E, ao sermos imperfeitos, temos recorrido à razão, aos valores éticos: discernir entre o bem e o mal é o mais alto grau da evolução darwiniana!

Nunca se casou ou teve filhos?
Não. Entrei no campo do sistema nervoso e fiquei tão fascinada pela sua beleza que decidi dedicar todo o meu tempo, a minha vida!

Qual é hoje seu grande sonho?
Que um dia logremos utilizar ao máximo a capacidade cognitiva dos nossos cérebros.

Quando deixou de sentir-se feia?
Ainda estou consciente de minhas limitações!

O que tem sido o melhor da sua vida?
Ajudar aos demais.

O que você faria hoje se tivesse 20 anos?
Mas eu estou fazendo!!!!

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