segunda-feira, 11 de fevereiro de 2013

Consumismo? o que é?

O consumismo desenfreado, estimulado por vários setores industriais, esta na contramão da sustentabilidade, conforme entrevista à Revista IPESI


Marcus Eduardo de Oliveira, economista, especialista em política internacional
e professor de economia da FAC-Fito e do Unifieo (São Paulo)

na contramão da sustentabilidade

IPESI – O sr. critica acerbamente o que chama de “obsolescência programada” de uma boa parte dos artigos hoje produzidos pela indústria. Mas o que é, afinal de contas, essa obsolescência programada?
OLIVEIRA - Trata-se de um conceito industrial já antigo, que nasceu na década de 1930 e preconiza diminuir a vida útil de um produto para “forçar” a venda de versões mais recentes ou modernas. Esse processo de “descartalização” foi criado por algumas economias capitalistas europeias no intuito de movimentar a máquina econômica, uma vez que o estoque de produtos se encontrava totalmente parado nas fábricas e nos portos, devido à Crise de 1929.
O produto mais ilustrativo dessa prática – e dessa época – foi a lâmpada. Nos anos 1920, uma lâmpada durava mais de 2.500 horas, tinha uma elevada durabilidade. Mas, pouco tempo depois, o ciclo de vida desse produto caía para menos de 1.000 horas. O documentário “A Conspiração da Lâmpada”, dirigido por Cosima Dannoritzer, mostra que os fabricantes de lâmpadas se reuniram para definir os novos padrões de produção que aumentariam o consumo.

IPESI – O conceito depois se espalharia pela indústria…
OLIVEIRA - Sim, empresas dos mais variados segmentos começaram a descartar projetos cujo foco era a durabilidade. Os designers passaram a criar artigos que ficariam defasados em curto espaço de tempo. Até hoje é assim, basta ver os celulares e os notebooks, os eletroeletrônicos em geral. Chips são colocados em impressoras para contar e limitar o número de impressões. A indústria de confecções “força” uma nova moda e uma nova tendência – incluindo estilos e, principalmente, cores de roupas – a cada estação do ano. Até os carros e motocicletas têm hoje uma vida útil menor do que os de antigamente.

IPESI – Enfim, a durabilidade de um produto é definida menos pelo seu potencial tecnológico do que por estratégias de mercado.
OLIVEIRA - E bem maquiavélicas, tendo-se em vista que, em alguns casos, o conserto de diversos produtos é propositadamente mais caro, o que faz com que os consumidores não tenham opção, a não ser partir para uma nova compra. Isso nada mais é do que uma indução da cultura do consumo e do descarte. É andar na contramão das atitudes sustentáveis. Trata-se de um profundo desrespeito das indústrias para com os consumidores, com o planeta e com a natureza.
Essa prática nada recomendável traz em seu rastro dilapidação ambiental. Porque diminui a cada dia a capacidade do planeta de suportar essa produção em escala tão alucinante. A humanidade já está consumindo 30% a mais do que o planeta é capaz de repor e é preciso que haja uma redução em até 40% nas emissões de gases de efeito estufa para que a temperatura não suba mais do que 2ºC. Isso, sem contar o fato de que esse apelo ao consumo se concentra basicamente nas mãos de 20% da humanidade, que “engole” 80% de tudo o que é produzido no planeta.

IPESI – Mas não seria graças à obsolescência programada que temos a sociedade industrial com o perfil que conhecemos? Não é esse mecanismo que sustenta a sociedade de consumo?
OLIVEIRA – Sem dúvida, a obsolescência programada contribui largamente para moldar a sociedade de consumo, ignorando o fato de que incitar mais consumo, mais produção e mais vendas é agressivo à economia do bem-estar e ambientalmente equilibrada. É agressivo também do ponto de vista ideológico, pois enaltece a cultura do “ter” em detrimento da cultura do “ser”, sugerindo que a felicidade de cada um repousa nos aspectos materiais, no fato de que obrigatoriamente é preciso adquirir algo, fazendo da questão material uma espécie de símbolo de modernidade.
Essa relação entre produção e consumo é incitada essencialmente pela propaganda, que nos é empurrada goela abaixo todos os dias e molda os nossos hábitos de consumo. O objetivo claro desse sistema é o de impor um consumismo desenfreado, estimulando o consumidor em todo momento a comprar um novo produto, de preferência no menor tempo possível. É um consumismo que empanturra as prateleiras com quinquilharias e faz do consumidor um mero fantoche.

IPESI – A ironia é que é também preciso muita tecnologia para programar o tempo de vida útil de um produto…
OLIVEIRA – A tecnologia desempenha um papel nada nobre nesse mecanismo. É ela, no fundo, que permite que um produto novo se torne ultrapassado ou obsoleto pela baixa vida útil nele inserido de maneira proposital. Por meios escusos, o produto em muitos casos já é fabricado para que quebre ou se desgaste com rapidez. Outras vezes, apenas se agrega um novo mecanismo ou função ao mesmo produto, dando-lhe um aspecto mais moderno de modo a estimular novas vendas.
O design também tem a sua participação. É ele o principal responsável da chamada “obsolescência perceptiva”, que reduz a vida útil de um produto em perfeito funcionamento e ainda com muita utilidade no futuro simplesmente pela aparência, que de repente fica ultrapassada quando comparado a versões mais “modernas”. A indústria de confecções, que lança a cada estação do ano, um novo padrão de moda, talvez seja o segmento mais ilustrativo dessa prática tacanha.
Mas tal expediente também é largamente usado pelos fabricantes de notebooks, de impressoras e, em especial, de celulares. Nos últimos cinco anos, o mercado foi empanturrado com pelo menos 450 tipos diferentes de aparelhos celulares. É fácil imaginar a quantidade de lixo eletrônico que esse consumismo desenfreado provoca.

IPESI – Mas sem a obsolescência programada não haveria o risco de o volume de produção diminuir, reduzindo o nível de consumo e a necessidade de mão de obra, provocando desemprego nas cadeias produtivas?
OLIVEIRA – Não podemos pensar e aceitar as obsolescências programada e perceptiva como mecanismos que fazem aumentar o giro da economia. Essa percepção é equivocada, pois os danos causados são maiores que os pretensos benefícios. Aceitar isso é cair, de imediato, no erro do consumismo sem limites e concentrado em pouquíssimas pessoas desse planeta. O mercado de consumo via obsolescência é um vírus que destrói as redes de sustentabilidade.
Temos que criar maneiras para promover alguma desconcentração do consumo. Não é necessário aumentar a capacidade produtiva para atender a todos. Ao contrário: o que já se tem de produtos fabricados espalhados por aí dá conta mais que suficiente das necessidades, desde que, é claro, essas necessidades sejam uniformemente distribuídas e bem atendidas.

IPESI – Algum controle externo (de cunho técnico) sobre a vida útil dos artigos não seria bem vindo? Mas ele não pressuporia a existência de um sistema de planejamento global, para além das forças do mercado?
OLIVEIRA – Eu penso que o melhor controle externo que existe é a percepção do consumidor, que é constantemente enganado quando adquire um produto novo e vê pouco tempo depois o mesmo se deteriorar ou “sair” de moda. Se o comportamento do consumidor apontar para a rejeição ao “novo produto”, rejeitando uma nova aquisição, certamente a indústria irá perceber que o que realmente tem vida curta é essa estratégia induzida que desrespeita o consumidor.
O consumidor tem maneiras de se autodefender. O primeiro aspecto a ser pensado quando se adquire um novo produto é a qualidade, combinada com um preço razoável. Não há como fugir disso: qualidade está intimamente relacionada à durabilidade. Com os padrões de tecnologia que dispomos hoje, é inadmissível adquirir, por exemplo, um produto eletrônico e perceber que há nele “mecanismos” embutidos para propositadamente diminuir seu tempo de funcionamento. É um absurdo achar que isso se trata de um desgaste natural. Sabemos que não é. (Alberto Mawakdiye)

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