segunda-feira, 19 de agosto de 2013

Nos tempos da Faculdade


A Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo, também conhecida como Faculdade de Direito do Largo de São Francisco, ou Arcadas ou Velha e Sempre Nova Academia, foi criada em 1827.
Seria a pedra fundamental do Império que se iniciava, pois deveria formar governantes e administradores.
Tais objetivos não demoraram a surgir juntamente com a presença positiva dos bacharéis. Da Faculdade de Direito, partiram os principais movimentos políticos da História do Brasil. Perto de completar 200 anos, ela já nos deu nove Presidentes da República, vários governadores, prefeitos e outras inúmeras grandes figuras de juristas, homens públicos, escritores, poetas e artistas.
Passei a fazer parte dessa história, em 1954, ano do Quarto Centenário de São Paulo, com todas suas memoráveis comemorações, das quais a Faculdade participou ativamente.
Apesar da maioridade eu era, à época, uma garota obediente, humilde e ingênua de coração, corpo, alma e razão. Nada sabia do amor, do sexo e da vida social da Capital, diurna ou noturna. Seguia a orientação dos meus pais, religiosamente. Havia tanta oposição familiar a minha formação em Direito, que me tornara tímida, timidez que beirava às raias do medo, da desconfiança. Via perigo em tudo e em todos. Cheguei a fazer um pequeno poema que bem representa os meus desencontrados sentimentos da época: “Não sei para onde vou / nem o que busco / quando chego, não é aquele o lar / quando parto, quero outra vez voltar / quem me dera repousar!”
Mas pouco a pouco fui me adaptando à vida na cidade grande. Todos, dentro e fora da Faculdade, me tratavam com um carinho especial. Fui me abrindo mais e aos poucos compreendendo a importância de ser uma acadêmica de Direito do Largo de São Francisco. Havia poucas alunas na Faculdade e o machismo de alguns colegas não chegava a me perturbar. As brincadeiras se generalizavam. Fiz grandes amizades com os colegas, amizades para a vida toda!
Eu já tinha passado por momentos escolares felizes, que me haviam proporcionado muita alegria e felicidade, mas que nada significaram. Minha vida transcorria sob a severa orientação familiar, mesmo afastada. Eu não tinha a menor consciência do meu eu.
Só na faculdade comecei a me sentir eu mesma. Momento decisivo ocorreu após uma prova de Introdução à Ciência do Direito, com o Professor Gofredo da Silva Telles. Ele falando as notas. Tudo calmo, foi dizendo os nomes e falando as notas até chegar ao meu e me chamar até à mesa.
Fiquei apavorada, que acontecera? Antes que me recuperasse ele se aproximou e disse para que todos ouvissem: Quero cumprimentá-la pessoalmente! Seu trabalho mereceu nota 10 com louvor! Fiquei paralisada. Mas aquele momento resultou em um marco na minha vida: ANTES E DEPOIS. Foi o impulso que faltava para meu completo amadurecimento e conquista da vida adulta! Nunca me esqueci!
Adquiri segurança, tinha mais certeza do que eu queria, fiquei conscientemente mais corajosa, mais alegre, mais confiante. Tudo porque o prazer que me invadira, naquele momento, tornara-se minha meta. Tinha que lutar e vencer para sentir novamente aquela sensação de euforia infinita que tomara conta do mim.
Assim foi dai para frente. Se antes ficava em dúvida sob o caminho a seguir (eram tantos os convites tentadores a me desviar) nunca mais titubiei. Tinha confiança. Eu me tornei uma autêntica acadêmica. Sabia o que eu queria e como conquistar.
Eu queria vencer, corresponder, ser uma digna representante da minha querida Velha e Sempre Nova Academia.

Colei Grau em 1958!  Missão cumprida? Não, era apenas um recomeço...

8 comentários:

  1. Chermont querida! A história está ficando linda. Grande experiência e recordações....Bjks

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    1. Obrigada querida Elis, aguarde a continuação... Beijos

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  2. Parabéns, amiga querida!!
    Me sinto lisonjeada demais com tua amizade!
    Você é um ser essencial, especial demais, AMIGA!
    MIL VEZES, PARABÉNS!
    BJO E ABRAÇO CARINHOSOS DA AMIGA JEANNE

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  3. Rodando pela web descobri este blog. Me interessei, na hora, e fui assistir seus vídeos. Que surpresa! Uma mulher de 85 anos, inteira, bonita, culta, feliz. Você nem pode imaginar o bem que me fez, já que estou passando por uma crise de identidade por ter feito 67 anos. E olhe que sou médica psiquiatra, com 2 filhos maravilhosos, adoro uma praia, pedalo, sou bonita, alegre, tenho amigos, mas... não aceito envelhecer. Pode isto? Pois é, é ridículo, mas essa sociedade que só pensa em juventude e beleza eternas está me fazendo ficar paralizada em minhas aspirações profissionais, já que penso em fazer pós-graduação e expandir meus conhecimentos para me tornar psicoterapêuta, também. Como o curso demora quase 2 anos, imaginei que, quando terminar estarei com quase 70. E aí, para montar um consultório onde eu possa, além da psiquiatria, praticar a psicoterapia? Estarei um "caco", foi o que pensei e este pensamento vem me deixando deprimida. Mas, quando entrei aqui e te vi nos vídeos, inteirona e completamente jovem, isto me deu um alento e tanto e percebi que podemos fazer aniversário e não virar uma velha feia, doentia, dependente, como vejo todos os dias nas ruas, nos consultórios, nos asilos. Sou muito, mas muito, vaidosa e me cuido bem, mas a tal data de nascimento é que me arrasa. Por isto foi tão importante ver uma jovem de 85 anos em plena vida. Agora sei que tenho muitos anos de juventude pela frente. E devo isto a você, Maria José. Bjsss
    Lucia M.B.Cordeiro

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    1. Entrei nesta pagina da Madam Chermon que é uma amiga incansável e que quando a conhecí nada sabia de internet e aos poucos foi dominando neste meio de comunicação social. Lendo a sua informação me alegro em saber que a Chermon, continua inspirando pessoas como você. E te digo mais, que a nossa vida é hoje dividida em quatro tempos de vinte anos cada. A vida mediana é 40 anos e as pessoas vivem hoje na média de 80 anos. Se você está com 62 tensa ainda 18 anos para viver intensamente a vida! E te digo que com a animosidade que tem a Madam Chermon ela via passar dos 100 anos. Ou seja ela tem ainda mais 18 anos para viver intensamente e continuar inspirando muitas pessoas. E agora você também poderá fazer o mesmo!

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    2. Fico grata e feliz com a participação de vocês. Continuem acompanhando meu blog. Lucia M B Cordeiro, gostaria de tê-la como amiga em meu facebook. Me procure: http://www.facebook.com/mjchermont
      Beijos

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  4. parabéns pela mais nova matéria, com informações históricas importantes para nossa metrópole. É sempre bom ver que o caminho para a realização pessoal é um processo longo, lento e individual, que muitas vezes passa pela reformulação dos valores familiares e vamos em frente.

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    1. Os valores familiares devem estar sempre acima dos demais valores sociais.

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