segunda-feira, 12 de agosto de 2013

O Túnel do Tempo


“Programa mais médicos atrai 715 profissionais”... 
A leitura de tal manchete na mídia me fez voltar a um passado bem distante... O Estado de são Paulo passava por problema semelhante... municípios sem escolas por falta de professores... municípios distantes, sem recursos, isolados...
Tudo começou nos fins da década de quarenta, do século passado... 1947. Eu morava no interior... 19 anos de idade. Havia terminado o Curso Normal, professorinha recém formada, cheia de sonhos. Queria estudar Direito em São Paulo. Coisa impossível, face a oposição familiar,  que só aceitava mulher tradicional ou... professora.
Pensei, pensei, chorei, sofri e... resolvi aderir ao programa do Estado. Mãos à obra. Preenchidas as formalidades legais, consegui uma  Escola Mista no litoral  Sul do Estado.
Estávamos no ano de 1949, eu com vinte anos de idade. Saindo de Santos, depois de um dia de viagem de trem cheguei à Juquiá e de lá fui de ônibus até Jacupiranga, município onde ficava a escola, em plena Serra do Mar. Sai no outro dia, bem cedo, à cavalo. Um funcionário me acompanhava, andando a pé.
Incrível, não tive medo, estava esperançosa, encantada com a vegetação e com o sobe desce do caminho,  ansiosa por chegar. Na época não havia telefone, nem rádio, nem televisão, nem jornais, nem revistas, nem estradas. Era no fim do mundo, ficava perto do atual ponto turístico chamado Caverna do Diabo.
Depois de quatro horas, chegamos! Um lugar lindo, um vale no meio das montanhas e uma comunidade rural, bem modesta com umas vinte casas de pau a pique, uma igrejinha e uma escola, adultos uns duzentos, todos alfabetizados, coisa rara. Os demais moradores ficavam espalhados pela região! Eu já sabia, mais ou menos, o que me esperava. Durante todo o trajeto vi poucas construções, todas semelhantes.
Era uma Comunidade de religião Batista, remanescente de uma antiga plantação de chá. Gente muito simples, simpática, religiosa, lia a Bíblia. Bastante interessada na escola. Logo nos entendemos e começamos a trabalhar juntos. Instalaram-me na casa da família do Pastor religioso.
A escola ficava ao lado, pequena, tinha poucas carteiras, uma mesa e uma lousa, sem nenhum outro recurso material. Tive trabalho para providenciar cadernos, lápis e giz. Alunos, no início menos de 15, logo cresceu, felizmente. Eu tinha um salário, mas contava com os pontos que ganharia, conforme a produção, ou seja, como prêmio pelo difícil acesso, o número dos alunos promovidos seria multiplicado por três.
A adaptação recíproca foi imediata. Fiquei lá dois anos, vindo para casa somente uma vez nas férias de verão. Sucesso total. Ganhei pontos para me efetivar como professora e poder vir para São Paulo estudar na Faculdade de Direito, como o planejado!
Voltarei ao assunto, porque vale recordar tudo que ocorreu durante esses dois anos...
MJ Chermont

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