segunda-feira, 20 de outubro de 2014

Sejamos todos feministas

Trecho da matéria da escritora nigeriana Chimamanda Adichie, publicada na revista Época (15/9/2014)

...... Em 2003, escrevi um romance chamado Hibisco roxo, sobre um homem que, entre outras coisas, batia na mulher, e sua história não acaba lá muito bem. Enquanto eu divulgava o livro na Nigéria, um jornalista, um homem bem-intencionado, veio me dar um conselho (talvez vocês saibam que nigerianos estão sempre prontos a dar conselhos que ninguém pediu). Ele comentou que diziam que meu livro era feminista. Seu conselho - disse, balançando a cabeça com um ar consternado - era que eu nunca, nunca me intitulasse feminista, já que as feministas são mulheres infelizes que não conseguem arranjar marido.
Então decidi me definir como "feminista feliz”.
Mais tarde, uma professora universitária nigeriana veio me dizer que o feminismo não fazia parte de nossa cultura, que era antiafricano e que, se eu me considerava feminista, era porque fora corrompida pelos livros ocidentais. De qualquer forma, já que o feminismo era antiafricano, resolvi me considerar "feminista feliz e africana”. Depois, uma grande amiga me disse que, se eu era feminista, então devia odiar os homens. Decidi me tornar uma "feminista feliz e africana que não odeia homens - e que gosta de usar batom e salto alto para si mesma, não para os homens".
É claro que não estou falando sério, só queria ilustrar como a palavra "feminista" tem um peso negativo. A feminista odeia os homens, odeia sutiã, odeia a cultura africana, acha que as mulheres devem mandar nos homens; ela não se pinta, não se depila, está sempre zangada,não tem senso de humor, não usa desodorante.
Quando eu estava no primário, no começo do ano letivo a professora anunciou que daria uma prova, e quem tirasse a nota mais alta seria o monitor da classe. Ser monitor era muito importante.
Queria muito ser a monitora da minha classe. E tirei a nota mais alta. Mas, para minha surpresa, a professora disse que o monitor seria um menino.
Ela se esquecera de esclarecer esse ponto, achou que fosse óbvio. Um garoto tirou a segunda nota mais alta. Ele seria o monitor. O mais interessante é que o menino era uma alma bondosa e doce, que não tinha o menor interesse em vigiar a classe com uma vara - exatamente o que eu almejava. Mas eu era menina, e ele menino, e ele foi escolhido.
Nunca me esqueci desse episódio.
Se repetimos uma coisa várias vezes, ela se torna normal. Se vemos uma coisa com frequência, ela se torna normal. Se só os meninos são escolhidos como monitores da classe, então em algum momento nós todos acharemos, mesmo que inconscientemente, que só um menino pode ser o monitor da classe. Se só os homens ocupam cargos de chefia nas empresas, começamos a achar "normal" que esses cargos de chefia só sejam ocupados por homens.
Homens e mulheres são diferentes. Temos hormônios diferentes, órgãos sexuais diferentes e atributos biológicos diferentes - as mulheres podem ter filhos, os homens não. Os homens têm mais testosterona e, em geral, são fisicamente mais fortes que as mulheres. Existem mais mulheres do que homens no mundo - 52o/o da população mundial é feminina. Mas os cargos de poder e prestígio são ocupados pelos homens. A nigeriana Wangari Maathai, ganhadora do Prêmio Nobel da Paz, se expressou muito bem e em poucas palavras quando disse que, quanto mais perto do topo chegamos, menos mulheres encontramos.
Então, de uma forma literal, os homens governam o mundo. Isso fazia sentido há 1.000 anos. Os seres humanos viviam num mundo onde a força física era o atributo mais importante para a sobrevivência. Quanto mais forte alguém era, mais chances tinha de liderar. E os homens, de uma maneira geral, são fisicamente mais fortes. Hoje, vivemos num mundo completamente diferente. A pessoa mais qualificada para liderar não é a fisicamente mais forte. É a mais inteligente, a mais culta, a mais criativa, a mais inovadora. E não existem hormônios para esses atributos. Tanto um homem como uma mulher podem ser inteligentes, inovadores, criativos. Nós evoluímos. Mas nossas ideias de gênero ainda deixam a desejar.
Sempre que vou acompanhada a um restaurante nigeriano, o garçom cumprimenta o homem e me ignora. Os garçons são produto de uma sociedade em que se aprende que os homens são mais importantes que as mulheres. Sei que eles não fazem por mal - mas há um abismo entre entender algo racionalmente e entender emocionalmente. Toda vez que eles me ignoram, me sinto invisível. Fico chateada. Quero dizer a eles que sou tão humana quanto um homem e digna de ser cumprimentada. Sei que são detalhes, mas às vezes são os detalhes que mais incomodam. Uma amiga americana trabalha com publicidade e tem um belo salário. Só há duas mulheres em sua equipe: ela e uma outra. Certa vez, numa reunião, ela disse que se sentira menosprezada por sua chefe, que ignorara seus comentários e elogiara um dos homens que haviam emitido uma opinião parecida com a dela. Ela queria se colocar e enfrentar a chefe, mas ficou quieta. Depois da reunião, foi chorar no banheiro e me ligou para desabafar. Ela não disse o que pensava para não parecer agressiva. Deixou o ressentimento ferver em banho-maria.O que me impressionou - em relação a ela e a várias outras amigas americanas - é quanto essas mulheres investem em ser "queridas", como foram criadas para acreditar que ser benquista é muito importante. Isso não inclui demonstrar raiva ou ser agressiva, tampouco discordar.
Perdemos muito tempo ensinando as meninas a se preocupar com o que os meninos pensam delas. Mas o oposto não acontece. Não ensinamos os meninos a se preocupar em ser "benquistos". Se perdemos muito tempo dizendo às meninas que elas não podem sentir raiva ou ser agressivas ou duras, elogiamos ou perdoamos os homens pelas mesmas razões. Em todos os lugares do mundo, existem milhares de artigos e livros ensinando o que as mulheres devem fazer, como devem ou não devem ser para atrair e agradar aos homens. Livros sobre como os homens devem agradar às mulheres são poucos.
A questão de gênero é importante em qualquer canto do mundo. É importante que se comece a planejar e a sonhar um mundo diferente. Um mundo mais justo. Um mundo de homens mais felizes e mulheres mais felizes, mais autênticos com si próprios. É assim que devemos começar: precisamos criar nossas filhas de uma maneira diferente. Também precisamos criar nossos filhos de um outro modo. O modo como criamos nossos filhos homens é nocivo. Nossa definição de masculinidade é muito estreita. Abafamos a humanidade que existe nos meninos, enclausuramo-los numa jaula pequena e resis-tente. Ensinamos que eles não podem ter medo,não podem ser fracos ou se mostrar mineráveis, precisam esconder quem realmente são porque têm de ser, como se diz na Nigéria, homens duros.
No ensino médio, quando um garoto e uma garota saem juntos, o único dinheiro de que dispõem é uma pequena mesada. Mesmo assim, espera-se que ele pague a conta, sempre, para provar sua masculinidade. (Depois nos perguntamos porque alguns roubam dinheiro dos pais...) E se tantoos meninos quanto as meninas fossem criados a não mais vincular a masculinidade ao dinheiro? O pior é que, quando os pressionamos a agir como durões, os deixamos com o ego muito frágil.
Quanto mais duro um homem acha que deve ser,mais fraco será seu ego. E criamos as meninas de uma maneira bastante perniciosa, porque as ensinamos a cuidar do ego frágil do sexo masculino. Ensinamos as meninas a se encolher, a se diminuir, ao lhes dizer: "Você pode ter ambição, mas não muita. Deve almejar o sucesso, mas nãomuito. Senão você  ameaça o homem. Se você é a provedora da família, finja que não é, sobretudo em público. Senão você emasculará o homem".Por que, então, não questionar essa premissa? Por que o sucesso da mulher ameaça o homem?
Uma vez, um conhecido meu nigeriano me perguntou se não me incomodava que os homens se sentissem intimidados comigo. Não me preocupo nem um pouco, porque o homem que se sente intimidado por mim é exatamente o tipo de homem por quem não me interesso. Mesmo assim, fiquei surpresa. Já que pertenço ao sexo feminino, espera-se que almeje me casar. Espera-se que faça minhas escolhas levando em conta que o casamento é o fato mais importante do mundo. O casamento pode ser algo bom, uma fonte de felicidade, amor e apoio mútuo. Por que ensinamos as meninas a aspirar ao casamento, mas não fazemos o mesmo com os meninos?.......................................................................................................

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