segunda-feira, 9 de março de 2015

A América Latina depende das mulheres

Na região, entre 2000 e 2010, os rendimentos das mulheres contribuíram para a redução de cerca de 30% da pobreza extrema e da desigualdade. 

As mulheres latino-americanas se tornaram um instrumento de mudança em seus países. Mais de 70 milhões de mulheres ingressaram no mercado de trabalho nos últimos anos.
Dois terços do aumento na participação da mão de obra feminina, nas duas últimas décadas, podem ser atribuídos a um nível educacional mais elevado e às mudanças na formação familiar, como o casamento tardio e a menor fertilidade.
Educação e capacitação econômica estão intimamente ligadas. Ao apoiar a educação de mulheres e meninas, a América Latina conseguiu reduzir a disparidade no ensino, levando mais mulheres do que homens às escolas.
Os rendimentos das mulheres contribuíram para a redução de cerca de 30% da pobreza extrema e da desigualdade na região entre 2000 e 2010. Elas desempenham um papel fundamental na condução do crescimento necessário para acabar com a pobreza extrema e na construção de sociedades resilientes.
Para que a América Latina faça a transição de uma região de renda média para alta, homens e mulheres precisam empurrar as fronteiras da igualdade de oportunidades. Mas, para chegar lá, é preciso lidar com três questões principais.
Primeiro, as taxas de violência e gravidez na adolescência permanecem altas. Quase uma em cada três mulheres da América Latina já sofreu algum tipo de violência perpetrada pelo companheiro. Combater a violência doméstica é vital. O Brasil perde 1,2% do seu PIB devido a perdas de produtividade ligadas à violência no gênero. No Rio de Janeiro, o Banco Mundial está trabalhando com o governo para melhorar o sistema e torná-lo mais seguro para as mulheres, oferecendo polícia feminina, clínicas para mulheres, Varas de Família, iluminação mais adequada, construção de banheiros femininos.
Em segundo lugar, a região encontra dificuldade de fortalecer a capacidade das mulheres para assumir o controle de suas vidas; quer seja a menina boliviana que fala quéchua e se esforça para concluir o ensino médio; a mãe moradora de uma favela nos arredores de Lima que luta para ter acesso à assistência médica; ou uma trabalhadora no Rio que tenta competir em condições de igualdade por empregos com maiores salários. As mulheres no Brasil, Chile, México ou Peru recebem salários inferiores aos dos homens, especialmente nas profissões mais qualificadas.
Finalmente, bons modelos femininos de liderança podem fazer a diferença. A região tem um número recorde de mulheres Chefes de Estado e uma média de 26% de mulheres em Parlamentos.
Eu me lembro da primeira reunião com a minha equipe administrativa quando me tornei Ministra das Finanças da Indonésia. Eu era a pessoa mais nova e a primeira mulher a ocupar esse cargo. Todos na sala eram homens. Naquele momento, soube que deveria me esforçar mais do que qualquer homem para provar que poderia ocupar o cargo. Tenho certeza de que muitas mulheres na América Latina passaram por experiências semelhantes.

SRI MULYANI INDRAWATI
Doutora em Economia pela Universidade de Illinois.
É oficial chefe de Operações do Grupo Banco Mundial.

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