sexta-feira, 3 de março de 2017

É possível viver bem sem sexo?

O desejo sexual dos seres humanos é natural ou cultural? Para o filósofo francês Michel Foucault “a sexualidade não passa de uma elaboração histórica. O que ela significa e exprime não ultrapassa suas especificas manifestações sociais e históricas, assim como não é possível explicar suas formas e variações sem que se examine e explique o contexto em que se formaram.”
A era vitoriana (século 19) ficou marcada pela intensa repressão ao prazer sexual, principalmente das mulheres, que não podiam gostar de sexo. A mulher ideal era assexuada, um símbolo de virtude. Criaram-se teorias para sustentar que o único prazer da mulher seria satisfazer o marido e criar os filhos.
Apesar da revolução sexual dos anos 60 e da mudança das mentalidades, muitas mulheres ainda negam a importância do sexo em suas vidas. Embora o desejo pelo prazer sexual esteja em todos nós, a cultura imposta desde a infância pode gerar esse tipo de comportamento.
Para os padres dos primórdios da Igreja o sexo era abominável. Argumentavam que a mulher (como um todo) e o homem (da cintura para baixo) eram criações do demônio. Diziam que se no Jardim do Éden existiu sexo, certamente foi frio e espaçado, sem erotismo e nenhum êxtase. Seu objetivo seria apenas o de cumprir as exigências do processo reprodutivo.
Os homens sabem que a mulher pode e deseja ter prazer. Talvez não saibam tanto sobre o assunto quanto um psicanalista que afirmou que “A mulher é o ser mais sexual do mundo, porque não tem cio. Uma mulher disposta, que tenha amigos, pode ter três, quatro, relações por dia durante 40, 50 anos. Se o homem aprender a não ejacular, ele pode acompanhá-la, mas se ele entra na do fanático de chegar ao fim, ele para no meio, pode-se dizer assim. É fundamental manter uma respiração tranquila durante a troca de carícias. Assim é possível frear todas as emoções precipitadas. E aí vão sendo apreciados os pedacinhos do caminho, sem pressa. Muitos homens tentam compensar a falta de qualidade com dados objetivos: tamanho do pênis, quantas ejaculações tiveram, etc.”
Mas quem não sente desejo por homens nem por mulheres, não está só. Cerca de 1% da população mundial simplesmente não sente atração sexual - seja por homens ou mulheres - afirma o livro “Entendendo a assexualidade”.
A Sociedade Brasileira de Estudos em Sexualidade Humana declarou à Folha de São Paulo que falta de apetite sexual só deve ser tratada se virar um incômodo: “Temos que tomar cuidado com a tendência de medicar tudo. Se a pessoa se sentir bem assim, pode levar uma vida perfeitamente normal sem pôr a sexualidade como ponto principal.”
Estamos diante de uma questão séria, porque a maioria das escolhas não é livre. O condicionamento cultural é tão forte, que muitos chegam à idade adulta sem saber o que realmente desejam e o que aprenderam a desejar. Assim, perceber os incômodos talvez seja fácil.
Entretanto, não são somente os assexuados que não fazem sexo. Em muitos casamentos a escassez de sexo existe e progride até a ausência total.

Fonte: Regina Navarro Lins

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